O final de semana tinha tudo para ser perfeito. Sexta-feira iria no show do Pouca Vogal (Humberto Gessinger e Duca Leindecker) e sábado no show do Pain Of Salvation. Por um momento pensei em não ir no show do Pouca Vogal por ser tarde (horário previsto para começar era 23h e nesse dia trabalhei até 19h e peguei um trânsito delicioso na 24 de maio...), mas acabei mudando de ideia e fui com o meu namorado Yanko (ele me deu o ingresso de presente do dia dos namorados :P).

Chegamos na Lapa, comemos uma pizza na barraca de uma tia gente boa e conversávamos como a Lapa mudou "pra melhor" no quesito iluminação, claro. Assim que terminamos de comer, seguimos para a fila que era bem pequena e às 22h os portões abriram. Ficamos na parte de cima do Circo Voador, um lugar que dá pra ficar sentado mas que não foi planejado para este fim. Enquanto o show não começava e a playlist que estava rolando de fundo era tão entediante quanto a espera, ficamos sentados ao lado da câmera do Circo Voador. Visão perfeita, de frente pro palco, bacana de se ficar até que...

...

- Ô cabeludo!
- ...
- Ô cabeludo! Ô de azul! Ô gordinho!
- ...
- Ô BALEIA!
- Acho que o cara está falando comigo.
- Ô BALEIA!
- Algum problema?
- Senta aí, o show vai começar!
- Não vou sentar.
- Senta aí, eu quero ver o show!
- Yanko, eu não vou assistir o show sentada. Acho falta de respeito, ainda mais aqui que não é lugar pra ficar sentado.
- Não vamos sentar.
- *pessoas jogando copos descartáveis nas nossas costas*
- *gritos de senta! senta! senta!*
- Senta aí menina!
- Não vou sentar, aqui não é camarote! Se você quer ver o show que fique em pé!
- Eu vou jogar água em vocês!
- Jogaram água na minha cabeça.
- Jogaram?!
- Sim.
- Ô cara, dá pra parar de jogar água na gente?
- Só vou parar se vocês sentarem!
- Então chama o segurança e pergunta pra ele se devemos sentar ou não.
- Não vou chamar porra nenhuma de segurança, senta aí ou vou jogar água!
- Pode jogar cara, não sou feito de açúcar.

E aí foi. Ele jogou praticamente uma garrafa inteira de água em nós dois. E não sentamos em nenhum momento do show e quero acreditar piamente que em dois momentos do show o Humberto "brindou" olhando pra mim. Só de pensar que isso é possível, valeu toda a água que foi jogada na minha cabeça e nas costas do Yanko.

Saí de lá me perguntando como que pode uma pessoa ser tão estúpida e tão infantil. Parem e pensem: chamar uma pessoa de BALEIA é digno de crianças de 5ª série. Fora que se a coisa fosse feder no fim do show, chamaria a polícia e iria fazer um B.O. por preconceito. Mas no fim das contas tudo deu certo, as pessoas ficaram putas mas isso é detalhe da falta de educação delas. Pagar pra ver um show que não é pra ver sentado e não prestigiar o artista como se deve e ainda arrumar discussão com quem é fã há mais de 10 anos por estar em pé... Tem que ter muito pé no chão e saco para aturar gente assim. O bom humor reinou e a nossa educação também.

No sábado, passamos o dia na casa de um amigo super gente boa. Ele pediu para a mãe dele fazer um almoço árabe e foi muito divertido tocar Guitar Hero depois de tanto tempo sem encostar num troço desses. Muitas piadas foram feitas e foi um dia agradável, daqueles que a gente conta nos dedos quantos dias faltam pro próximo encontro do tipo...

Deu a hora de ir ao show do Pain Of Salvation e saímos rumo ao Hard Rock Café que fica na Barra. Uma fila enorme estava do lado de fora e mais uma vez, ficamos esperando e é claro, se divertindo com os comentários dos fãs:

- Por que o BE é o pior álbum dos caras!
- Disco Queen é muito foda!

E fui obrigada a pegar meu fone e a ouvir Reign Of Kindo para abstrair daquela maluquice. Afinal, dizer que o Be é o pior álbum dos caras a pessoa só pode ser maluca ou não soube ouvir o álbum. Mas... Gosto é gosto.
Encontramos alguns amigos na fila (óbvio) e um deles foi o Robertinho e seu irmão, Pedrinho. Muito bacana reencontrá-los, os caras são fodas. Fiquei feliz em vê-los depois de tanto tempo. Não desmerecendo os outros amigos, mas acho que fazem uns 2 anos que o Robertinho sumiu do bonde dos metaleiros. Também fiquei feliz ao ver o Jasom assistindo o show, por mais que ele tenha conhecido os integrantes no dia anterior e tenha visto o show de 2005 (foi 2005? nem lembro mais!), acho bacana quando as pessoas realizam sonhos e/ou conseguem atingir um objetivo. Sei lá, sou meio boboca com esse tipo de coisa.

No show, o som estava uma titica e só com o passar das músicas é que foi melhorando. Tocaram Black Hills (uma das músicas que jamais passou pela minha cabeça vê-la ao vivo) e que faz parte da minha história com o Yanko. Quando éramos amigos, ele passou essa música (na época não gostava taaanto assim de PoS) e falou: "ouve essa música! ela é muito foda!!" e escutava todo santo dia para "atrair" a atenção dele no MSN. Bobona né? Eu sei. :)

Nesse show não teve problema nenhum e posso dizer que tudo deu certo (menos pros caras da banda que tiveram que enfrentar cordas quebradas, som ruim etc).

Saímos do Hard Rock Café direto pro Outback. Peguei no celular e recebi uma mensagem da minha tia:
"Oi minha linda, tudo bem? A tia tem uma notícia ruim pra te dar, o vo faleceu de ontem pra hoje. Beijo tchau I love you".
E fiquei a noite inteira pensando: "que vô?! será que é o vizinho que ela chama de vô?" E tentei aproveitar o resto da noite com o pessoal, mas aquilo não saiu da minha cabeça.

No dia seguinte, mandei uma mensagem perguntando se era esse vô (vizinho dela) e comecei a arrumar o quarto (afinal, como passamos o final de semana "fora de casa", acumulamos algumas coisas e no dia seguinte voltaria pro pensionato, logo, tinha que arrumar as minhas coisas também e blablabla). Recebi a mensagem da minha tia dizendo que quem tinha falecido era o meu bisavô Faustino e eu simplesmente não consegui processar o que senti. Soltei tudo uma vez, uma explosão que até agora não sei como saiu tudo de uma vez. Acho que se não estivesse com o Yanko naquele momento, não sei o que aconteceria. Uma mistura de raiva e tristeza me dominou de tal maneira que não conseguia falar, não conseguia pensar em nada, só conseguia chorar.

Passado essa onda, entrei na Internet e fui falar direto com a minha mãe. Sentia (e ainda estou sentindo) meu peito cansado, angustiado, como se tudo de ruim acontecesse de uma vez só. Sabe aquela sensação de "será que isso nunca mais vai acabar?" e aí quando você se dá conta passou? Pois é, estava exatamente assim.

Ele estava numa idade avançada, porém, não tinha doença alguma. Foram dois infartos, um no asilo e outro no hospital e ele veio a falecer de sexta pra sábado (e só "soube" no sábado a noite).
O meu sentimento de revolta era tão grande por estar longe e não poder estar do lado da minha avó e da minha mãe que fiquei chorando por estar de mãos atadas e não poder fazer nada. Mais revoltada fiquei quando soube que os meus primos não avisaram quando o primeiro infarto aconteceu e que ele estava internado num bairro próximo. Só avisaram horas antes do enterro, num total descaso principalmente com os sentimentos da minha avó que era filha dele e tinha o direito de saber desde o início. Fiquei revoltada por darem a desculpa da greve de ônibus de São Bernardo como se isso justificasse ou explicasse tal atitude, mostrando o quanto eles cagam e andam para os sentimentos dos outros, ou melhor, das pessoas que diziam ser da família.

Laços de Família à parte, ainda estou muito abalada e muito magoada com a morte do meu bisavô. Muitos dizem que não devo ficar triste tampouco magoada, mas sou humana e não tem como virar para o meu coração e dizer para sentir diferente. O meu luto é assim, sempre foi assim. Passo dias pensando na pessoa, pensando nos momentos que tive com ela, choro a qualquer hora a qualquer lugar, ao ouvir uma música que "casa" bem com a situação... Não consigo levar as coisas no meu lado racional, o emocional domina. A última vez que o encontrei foi no casamento da minha prima, conversamos bastante e foi ele quem levou as alianças. O meu irmão mais velho até cogitou fazer o mesmo no casamento dele que será em janeiro... Enfim, foi algo que me derrubou, ainda mais ele que estava em um lugar que não era a casa dele e as pessoas ao seu redor não eram a sua família.

Não consigo lidar com a morte. Não consigo entender, sinto medo, sinto uma angústia sem fim quando penso nesse assunto. Me dá raiva por ver que ela sempre leva quem não deve ir, mas quem sou eu pra dizer quem deve ir ou não? Sou um nada perto de quem "manda e desmanda" nisso. Mas continuo com uma interrogação enorme quando o assunto é morte e o pior é que a tendência com o passar dos dias e dos anos é ver mais pessoas partindo. A não ser que inverta essa situação. Nunca se sabe. "A vida é doce".

Queria muito dar um abraço na minha avó e na minha mãe, mas não posso ir agora. Acho que vir pro RJ tem um lado muito muito muito ruim que é o de ver coisas ruins acontecendo e 450km te deixar de mãos atadas. Só as paredes, só o laptop, só as músicas e os meus ursos de pelúcia sabem o que acontece num quarto minúsculo quando se trata de tristeza. Sentimentos que ninguém sabe quais são, sentimentos que só nós sabemos quais são. Sentimentos que não gostaria que ninguém sentisse e que só nós sabemos. E por mais que eu fale e as pessoas não acreditem neles, eles estão aqui dentro. E mesmo que as pessoas digam "é só um bisavô", "é só um cachorro que morreu", "é só uma pessoa que conhecia de vista", ninguém além de você sabe quais são esses sentimentos que sobem e descem como se estivessem num elevador. E por mais que exista um poço e eles estão escondidos quando o elevador fica emperrado, eles sempre aparecem. Não adianta fugir ou fingir que está tudo bem quando não está. É enganar a si mesmo, é esconder no fundo do poço o seu real sentimento e viver como se fosse um boneco de plástico com emoções falsas. Não sou dessa laia, não levo tudo na racionalidade para não sentir tristeza, mágoa... Sou humana. E o meu capítulo 3 se encerra num luto que espero não passar por isso tão cedo.


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