24 de abr de 2017

Nove verdades e uma mentira

 9 verdades e 1 mentira do único homem da minha sala do curso de alemão:

1- ele sempre tenta passar a mão nas mulheres, seja no cabelo, rosto ou pernas;
2- ele tem 28 anos e 2 filhos;
3- ele usa cocaína nas raves e acha que não é nada demais;
4- ele já tirou uma foto de uma aluna sem pedir e quando ela pediu para apagar, ficou puto;
5- ele dá em cima de todas as alunas novas, senta do lado delas e acha que isso é normal;
6- ele é da Itália;
7- certa vez ele disse para o professor que eu era "a melhor da sala" e completou com um "pena que é casada" - só ele riu disso;
8- ele não faz a menor ideia da gramática alemã, nem o livro do curso ele comprou;
9- "Scheiße" é uma das palavras mais ditas por ele;
10- ele respeita as mulheres.

Resumo da ópera: homem babaca tem em qualquer lugar.
 

NÃO É NÃO PORRA!

30 de dez de 2016

Deposta

Não sou de memorizar quantos anos as pessoas têm ou irão fazer. Sempre digo aos meus familiares que as pessoas pararam no tempo com as idades que a minha mente diz que elas possuem: minha mãe tem 47 anos, meus irmãos 27 e 30, minha tia 50 e minha avó uns 70. Pensar dessa forma me ajudava a não perceber que o tempo estava passando e com ele aumentando suas idades. Quando era pequena, pensava que todo mundo era eterno e que a morte só passava na porta de outras pessoas, nunca na nossa. Me sentia segura como uma ave embaixo das asas da mãe, mesmo com tantas tempestades, ventania e calor em excesso. Confortável.

Não sou fã de anos pares. E quando digo que não sou fã, inevitavelmente o que eu penso e acho torna-se real pela força e pela crença. Acabo sentindo e provavelmente transferindo essa carga negativa e sempre sou invadida por pensamentos negativos de "não será um ano tão bom" ou "algo ruim vai acontecer". Acredito em energias e na força dos pensamentos mesmo quando enfrento um mar de merda: abro o guarda-chuva ou recorro a capa de chuva para não molhar tanto. Mas os respingos da merda marcam, fedem e mesmo assim tento aprender da melhor forma possível.

Esse ano começou inacreditavelmente bizarro. No dia 08/01/2016 ouvi o novo álbum do David Bowie sem entender nada do que estava acontecendo. Assistia os clipes novos com uma interrogação na testa do tamanho de um elefante. Mas no dia 10/01/2016 a resposta veio feroz com sua morte anunciada e tudo fez sentido. A dor me invadiu e chorei assistindo o noticiário da BBC News. Como poderia chorar por alguém que não me conhecia e que eu não conhecia (pessoalmente e intimamente falando)? Mas ele com suas músicas e seu jeito camaleão de ser me conquistaram e me ajudaram em diversas situações da minha vida. Na maioria das vezes uma "resposta" ou um hit invadia a minha mente para questões ou momentos difíceis. Sua música ajudou na minha jornada, mas perdê-lo não fez com que uma porta se fechasse: seu recado foi e continua sendo dado e sua presença ainda está aqui de alguma forma.

O ano de 2016 seguiu dando muitas pauladas. Muitos se foram (para outro lugar que os vivos ainda não conheceram ou mudaram de estado, país ou simplesmente foram embora por opção), estranhos acontecimentos marcaram a política, intolerância e guerra (em todos os sentidos, não só o sentido de guerra entre dois países ou dois times de futebol) mostraram que a humanidade anda um pouquinho complicada. Mas ainda insistimos e resistimos com a crença do finado Nelson Ned de que:

"Mas tudo passa, tudo passará
E nada fica, nada ficará
Só se encontra a felicidade
Quando se entrega o coração

Voltarei a querer algum dia
Hoje eu sei que não vou mais chorar
Se em mim já não há alegria
A esperança me ensina a gritar"

Ontem, 29/12, Cássia Eller completava 15 anos de morte. Para aqueles que não sabem do meu segredo oculto, sempre gostei dela e sua voz me arrepia todas as churréias que ainda habitam esse corpo. Às 22h05 comecei a ouvir seu álbum, Com Você ... O Meu Mundo Ficaria Completo, e lembrei uma vez que a minha mãe reclamou que estava ouvindo o acústico dela após discutirmos sobre alguma coisa que não me lembro mais. Pesquisei sobre a Cássia e descobri que ela faleceu às 19h05 (aqui na Alemanha eram 22h05) e fiquei arrepiada com a coincidência. Adoro coincidências. E ontem passei a não gostar tanto assim.

A minha cabeça é esquisita. Ou melhor, os meus pensamentos normalmente são esquisitos. Muitos pensamentos surgem na minha cabeça sem pedir licença e quando percebo já estou pensando em coisas surreais, bizarras, tristes, felizes… Diria até que uma mini novela de acontecimentos surgem na minha cabeça. Seria eu, bipolar, ou normal para os padrões que a sociedade estabelece?

Meu marido estava jogando no computador enquanto tratava algumas fotos da última viagem que fizemos. E de repente, do nada, pensei na minha avó e na sua vontade de ser enterrada no jazigo que ela comprou com tanto esforço em São Paulo. Ela estava passando as festas de final de ano em Ilhéus com suas duas filhas e seu genro. E pensei "se acontecer alguma coisa, como vamos fazer para transferi-la para o jazigo?" e minha cabeça começou a doer. Sentia minha cabeça cheia, como se fosse um grande balão cheio de ar. Esses pensamentos estranhos e ruins guardo a sete chaves e sempre penso positivo em seguida. Mas o pensamento positivo não deu certo e a minha dúvida se concretizou na manhã do dia seguinte.

Eu ainda acho que vou acordar e que tudo isso foi um pesadelo. Que a minha avó estará bem, feliz na medida do possível, comendo feito um leão esfomeado e rindo, me chamando de "minha princesa!". Sinto que dentro de mim um pedaço está faltando, um vazio tão palpável que chega a assustar. Sinto que uma parte de mim morreu e que estou operando na base do piloto automático, talvez isso explique meu texto sem sentido algum. Eu sentia que precisava escrever para soltar toda a dor que me rasga por dentro sem dó. E continuo crendo que vou dormir agora e que amanhã tudo isso foi um pesadelo e que acabou.

Leio e releio suas cartas. Muitas me fazem rir, outras me fazem chorar pela saudade que me invade e por conseguir ouvir sua voz a cada linha lida. Deus, como ela era engraçada! Como ela sofreu sem a minha presença nos anos da faculdade… Como ela amava a família! E como ela deu o sangue por todos nós…

2016 encerrando e levando com ele uma das pessoas mais importantes da minha vida. E eu sendo deposta e deixando de ser princesa…

Por favor, alguém fecha a porta de 2016.

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"Minha princesa (...) o verdadeiro amigo é um amor que nunca acaba. Cuidado com o ferro quente."

"Oi minha princesa, peço a Deus que você esteja ótima. Eu estou bem. Estou te mandando a mesma fotografia de novo, espero que chegue. Não quero que você chore, você está aí por uma boa causa, falô? Beijo, que Deus te proteja. Vou no correio reclamar. Muitos beijos. Se você não receber me avisa!"

"Princesa, abriu uma sorveteria da hora perto da farmacinha perto da sua casa (...)"

"Agradeça a Regina, ao Osmar e o Iago por mim pela força que eles tem dado nesse ano que passou e que você faça por merecer para ter neste ano que vem a mesma coisa ou mais. Espero que você alcance tudo o que você deseja. Espero que não te aborreci, que você tenha sido feliz e conte sempre com esta velha bocó (...)"
Te amo, vó.

4 de mai de 2016

Pura frustração: aprender a falar alemão

É primavera aqui na Alemanha, logo, as flores estão nascendo por todos os lados. Do lado do prédio que resido, nasceram flores amarelas que só abriam quando o sol dava as caras:


Arrancaram as flores e isso me emputeceu. Passamos 8 meses com tudo cinza e sem uma porra de verde na rua para do nada arrancarem porque foda-se. Pra que flores não é mesmo?

Será que eu tô errada, exagerando ou é de se ficar pelo menos chateada com a situação? Enfim...

Ultimamente não estou com humor ou inspiração para escrever sobre qualquer coisa. Antigamente escrevia com mais frequência sobre qualquer merda, poucos liam, mas ficava satisfeita com o ponto final no texto. Normalmente eram desabafos do dia a dia, acontecimentos ou histórias que vivi, mas sempre tentando passar algo de bom, otimista ou que fizesse alguém rir. Acho que escrever é um dos hobbys que se apagou dentro de mim. 

Dito isso e tantos palavrões e palavras feias (oh Deus, me perdoe) com tantos erros de português e concordâncias e vírgulas sobrando, definitivamente hoje o dia não está sendo bom e me dou esse momento para desabafar.

Eu nunca fui uma aluna exemplar. Sempre tive notas instáveis, nunca fui daquele tipo de aluna que só tira 10 e que possui uma inteligência ímpar. Chorava para aprender matemática, chorava quando não conseguia entregar o teste completo. Rasgava as folhas de tanto apagar as respostas, nunca tinha certeza do que estava escrevendo, assinalando, optando. Sempre tive muita dificuldade, mas nossa, entrei na faculdade e consegui terminar. Só que ninguém estava por perto enquanto chorava por não entender alguma matéria, enquanto tentava estudar e não conseguia focar de jeito nenhum, enquanto tentava dar o meu melhor e normalmente a nota era média ou bem ruim. Aprender, qualquer coisa que seja, sempre foi muito difícil pra mim. E ainda é. E a frustração é sempre a minha companheira.

Na semana passada estava esperando para entrar na sala de aula (estou tentando aprender alemão) e uma guria estava chorando enquanto o professor a consolava e o resto do pessoal, ria. Eu jurei que se na próxima aula ela estivesse chorando e o pessoal estivesse rindo que iria mandar todo mundo pra puta que pariu. Na aula seguinte ela estava chorando de novo e o pessoal parecia estar com dó dela e conversavam numa boa, ou seja, não precisei sair do meu status "ok" para o status "vou matar alguém na pancada". Cheguei a comentar com alguém que se não está fluindo o curso que talvez a saída seja trancar, dar uma respirada e voltar quando achar que está ok o suficiente para continuar...

... Hoje fiz mais um teste e já é o terceiro seguido que não vou bem.

Comecei a reparar os alunos, todos com confiança, aprendendo, entendendo, falando como se fosse uma língua tão simples e fácil e fiquei desanimada. E entendi a frustração da menina e me senti no lugar dela. É frustrante demais não conseguir escrever uma frase. Ou então quando você vai falar alguma coisa e a pessoa fica fazendo cara de cu por não conseguir te entender e muda pro inglês. E na academia? Para tentar acompanhar o que o professor está passando tenho que ficar sempre olhando e a dor no pescoço e nos ombros é enorme (fora os passos errados, parecendo uma idiota fazendo piruetas pra direita enquanto os outros fazem pra esquerda). Tem também aquela pessoa que diz que "você precisa aprender alemão logo!" ou aquela pessoa que fica afirmando "mas você mora na Alemanha então já sabe falar alemão! Vou te usar para passear aí risos risos risos". Pára com essa porra. Essa língua é um inferno e é a pura frustração.

Dói demais ver tanta gente conversando fluente como se fosse tão simples. Pessoas falando no celular, digitando rapidamente, lendo placas, escrevendo e respondendo questionários nas ruas, na prefeitura ou na puta que pariu. Eu me sinto burra, analfabeta. É horrível viver assim.

Mas né, eu moro na Europa então do que estou reclamando? Muitos julgam dessa maneira. Morar na Europa pode ser maravilhoso, mas existem OUTROS problemas e enfrentá-los às vezes é uma porrada no estômago constante. Hoje, em especial, cansei de tomar porrada

Já fiz essa pergunta, vou repetir:

Será que eu tô errada, exagerando ou é de se ficar pelo menos chateada com a situação?

12 de jan de 2016

Não tão dibowie...

Domingo é um dia bem esquisito. Aqui não somos agraciados com a música do Fantástico, mas o clima e o feeling angustiante também passa por aqui. Meu marido se recuperava de uma gripe forte deitado no sofá, assistindo alguns trechos do Labyrinth (filme que ele sabe de cor) enquanto eu estava estendendo a roupa no varal. Viro pra ele e digo "se um dia encontrar com o Bowie em Londres acho que terei um infarto". Rimos muito.

06h da manhã do dia 11/01/2016. Meu marido acorda tossindo e acordo assustada. Levanto para tomar água e retorno para a cama, porém, sem sono nenhum. Viro pro lado, deito de barriga pra cima, nada. Pego o celular, já são 06h30 e dou uma rápida olhada nas redes sociais. Abro o Twitter e vejo a seguinte mensagem:


Na hora que li isso começou a tocar um trecho da música Blackstar na minha cabeça:

"Something happened on the day he died
Spirit rose a metre and stepped aside
Somebody else took his place, and bravely cried
(I’m a blackstar, I’m a blackstar)"


Fiz uma busca no Twitter e muitos diziam que era hoax. No primeiro momento compartilhei o post dizendo que se tratava de hoax, afinal, não era a primeira vez que "matavam" o mestre. Mas com o passar dos minutos vi que aquilo não era hoax, era verdade. Me recusava a acreditar e continuei na cama acompanhando a velocidade de como aquele tweet corria, como as pessoas choravam em palavras, como tudo foi caminhando para a conformidade.

De repente Duncan Jones (filho dele) aparece confirmando tal post...


Dei um pulo da cama. Eram quase 08h30 e o meu marido dessa vez acordou no susto: "o que houve?" ; "nada, vou ali na sala".

Liguei a TV e o "breaking news" foi mais um punch na minha cara. A jornalista em Londres com uma tristeza muito aparente dizia o que não queria ouvir. E sem conseguir falar com o meu marido, só apontei para a TV e comecei a chorar.

Enquanto escrevo ainda estou tentando lidar, tentando ir pelo lado racional da coisa e não ser mais uma pessoa que está chorando em palavras. Foco.

Foi difícil não pensar nele no dia de ontem. Hoje dói menos que ontem, mas sua voz, suas novas (e antigas) músicas ainda ecoam no dia de hoje e vão ecoar para sempre. Algumas pessoas dizem que é exagero ficar triste por alguém que nunca te conheceu e nem vai conhecer, mas ele fez parte da minha história (e de tantas outras pessoas) e não consigo encarar como se fosse mais um dia qualquer ou mais uma morte qualquer. Respeitar esse momento é crucial, ninguém é igual a ninguém. Um pouco de empatia não é vergonhoso ou "mi mi mi", é necessário.

Dito isso...

O novo álbum ★ [Blackstar] foi lançado na sexta-feira, dia do aniversário do mestre. Encarei esse momento como uma nova tradição, já que há dois anos atrás foi lançado The Next Day e internalizei que a cada dois anos sempre teríamos algo novo do mestre - o que compensaria a falta de shows, já que ele nunca mais quis subir aos palcos após um infarte. Mas assim que terminei de ouvir o novo álbum fiquei com a sensação de "não faz o menor sentido". E hoje, ouvindo o álbum com todos os seus detalhes, arranjos (como se fosse um apanhado geral das mais belas músicas já feitas por ele) e com suas letras tão evidentes ficou claro que está tudo ali e que fazia todo o sentido: ele contou para todos nós o que iria acontecer e não percebemos no primeiro momento. É literalmente um álbum de encerramento e um belo testamento para todos nós.


David Bowie é um artista completo e encerrou sua carreira com genialidade e maestria. Sua lacuna jamais será preenchida e o meu amor será eterno...




7 de dez de 2015

Losing him

Nasci no fim dos anos 80 (1988) e hoje estou com 27 anos. A minha memória não é das melhores, porém, algumas coisas me marcaram de tal forma que é como se tivessem acabado de acontecer. Memórias bem vivas.

Uma dessas memórias é de quando ouvi My Favorite Headache. Estava na Bahia passando férias com a minha família e o meu irmão colocou esse álbum no rádio. "Música nova do Rush?!?" perguntei com um sorriso no rosto e o meu irmão disse "sim" e em seguida riu dizendo "brincadeira, é o cd solo do Geddy". E mesmo assim foi uma sensação ótima ouvir algo "novo" após um hiato tão grande.

A primeira vez que vi o show deles foi no Estádio do Morumbi em 2010. Arquibancada, longe demais do palco, bêbados atrapalhavam o show (e um deles chegou a cair em cima de mim e do meu marido), mas cara, era o Rush ali!

Depois consegui vê-los mais de perto na Apoteose no Rio de Janeiro. Lembro que estava com crise de asma e mesmo assim corri o máximo que pude para chegar na grade e consegui. Lembro do Geddy e do Alex fazendo graça na minha direção e do quanto aquilo me deixou feliz. E ver o Neil sorrindo valeu o preço do ingresso e a falta de ar.

Outro dia li um comentário no Facebook sobre bandas antigas que me deixou engasgada. O rapaz preferia (e gostava) de bandas novas porque as antigas só tocam músicas antigas e não se renovam. É a tal da receita de bolo seguida à risca que nunca falha, logo, pra que colocar mais açúcar ou mais farinha se vai ficar uma merda, não é mesmo? Talvez esse rapaz tenha razão em relação a algumas bandas, mas com o Rush era (é) diferente. 60 e poucos anos nas costas e os caras ainda estudavam (estudam) para melhorarem (!!!) suas técnicas. Lançaram álbuns novos, letras incríveis como The Garden e Faithless e seguiram em turnê mesclando músicas antigas com novas, estruturando o palco com piadinhas e momentos marcantes. Tudo isso feito por prazer e não por obrigação. E isso, meus senhores, poucas bandas conseguem ter e manter o equilíbrio.

Como nasci em 1988 e gosto de bandas antigas infelizmente minha sina é ver os artistas que gosto morrerem ou as bandas acabarem. E hoje a Olívia, filha do Neil Peart surpreendeu não só os seus novos amigos, mas a todos os fãs de Rush:

 "Lately Olivia [ Neil’s daughter] has been introducing me to new friends at school as ‘My dad – he’s a retired drummer.’ True to say, funny to hear."*



Eu não sei em que pé está essa situação, mas normalmente as crianças são mais sinceras e verdadeiras. E dói ler uma coisa dessas. Você nunca pensa no fim de absolutamente nada - a não ser que você esteja literalmente cagando e o almoço está pronto - e quando o fim acontece fica aquela sensação esquisita de "puts, e agora?".

E ao mesmo tempo eu não posso ser egoísta e desejar que eles toquem até a dentadura do Geddy sair voando após dar um berro bem desafinado com sua voz desgastada com o tempo, ou os braços do Neil fiquem inchados feitos balões finos para fazer cachorros ou qualquer bicho inflável bizarro ou o pobre do Alex perca seus dedos de tantos solos engasgados e cansados.

Fica o sentimento de tristeza e de gratidão. Gratidão por eles terem passado pela minha vida e por terem marcado de tantas formas maravilhosas. Gratidão pelas suas letras e melodias, pelos seus sorrisos mesmo com tanta dor e fadiga. Gratidão por terem tocado Losing It e por finalmente ter entendido o seu real significado: é muito mais difícil a perda de um talento do que jamais tê-lo alcançado na vida. E isso eles alcançaram com muita maestria. 


16 de out de 2015

O que o Patrick Swayze tem a ver com a Moa?

Sou do tempo que ouvia uma música no rádio e se gostasse, ficava esperando o locutor dizer o nome da música e da banda. Às vezes acontecia de entrar direto nos comerciais ou só diziam o nome da banda e não da música e assim a música se "perdia" na minha memória.

Ia com uma certa frequência para Guarulhos com os meus tios. A minha tia tinha um fusca e o meu tio um Gol quadrado, ou seja, Antena 1 dominava no fusca e o samba de raiz dominava no Gol. Sempre que deixávamos o meu tio em Guarulhos, voltávamos pela Marginal Tietê ouvindo Antena 1 e era difícil tomar nota das bandas e dos vocalistas que invadiam o fusca com suas melodias e vozes maravilhosas (sim, eu sou brega e adoro ouvir Antena 1). Eu não sabia inglês então era muito mais difícil descobrir de quem era...


Então quando começava uma música que gostava bastante, prestava atenção em cada parte e guardava na memória para que um dia resgatasse aquela banda perdida.

Aqui na Alemanha sempre tocam as mesmas músicas no rádio e até no mesmo horário de sempre. Mas ontem tocou uma música antiga, daquelas que sempre ouvia na Antena 1 e nunca soube de quem era:


Abri a porta do banheiro e chamei o Yanko para mostrar mais uma das músicas bregas que adoro. Ele com seu inglês super afiado descobriu a frase que o vocalista dizia, digitou no YouTube e finalmente descobri quem era o dono daquela voz!



Patrick Swayze - She's Like The Wind!!!!!!

Gente, que alegria senti ao retirar essa música do meu arquivo de memória e dar um nome e um vocalista para ela! Incrível! Agora que tem "corpo" posso gostar dela tendo a certeza que existe de fato e não era uma memória maluca da minha cabeça.

E esse mesmo sentimento se encaixa com a Moa, mas com a diferença que agora não existe mais um corpo físico e posso continuar amando da mesma forma. Hoje aquele portão laranja pode não ter mais utilidade (fisicamente falando), mas no fundo ter ele ali dividindo a casa do quintal é tão importante quanto o pé de limão: ambos representam e guardam boas lembranças da Moa. Ela pode não estar mais ali marchando, esperando um carinho, erguendo o pescoço o máximo que podia só para sentir um afago, mas suas histórias estão mais vivas do que nunca dentro do meu coração. Está meio difícil digitar e respirar hoje. Nunca imaginei que o meu tchau fosse na verdade um adeus...


Na real não acredito em adeus. Acredito no até logo e é isso que bloqueia o meu medo do desconhecido e da morte: acreditar que em algum momento vamos nos encontrar ainda, seja aqui de novo ou em algum lugar muito bacana com muitos limões para ela brincar.

Obrigada Moa por ter iluminado as nossas vidas. Obrigada por ter sido tão boa para nós. Obrigada por ter me ensinado a te amar tão intensamente sem pedir nada em troca. Meu coração está em pedaços com sua partida, mas provavelmente você está melhor agora e isso acalma a minha dor. Te amo sua doidica...

7 de out de 2015

Angelus e a saudade

Hoje de manhã liguei a televisão para ouvir um pouco a (tão temida e difícil) língua alemã. Comecei a zapear os canais e em um deles já estava vendendo lâmpadas de Natal. Uma confusão, programa ao vivo, um atropelando o outro e não entendia nada do que estava sendo dito, só o valor grande na tela e as luzes piscando faziam algum sentido.

Mudei de canal e vi três mulheres falando uma língua conhecida. Era português. Larguei o controle e comecei a assistir o documentário Brésil, L'éveil d'un géant do Pascal Vasselin. Como era dublado em alemão foi difícil ouvir o que as mulheres diziam, mas com muito custo, conseguia ouvir uma coisa ou outra: S que virava um X, um "São Gonçalo" e até mesmo um "caramba!" que não teve tradução em alemão. 

O documentário era sobre a história política do país, peguei começado e já estava no Juscelino Kubitschek e na reforma de Brasília. Como o assunto era extremamente delicado, fiquei com aquela mistura maluca de sentimentos: saudade e raiva, medo e esperança, revolta e conformidade, alegria e tristeza.

Assim que o documentário acabou, fiquei na ânsia de ouvir mais a língua nativa. Fui no Rdio e coloquei Vinícius de Moraes, "nah, não é isso que quero ouvir", troquei para Milton Nascimento, porém, não conhecia muita coisa da discografia. Coloquei um álbum que tinha uma série de sucessos e vi uns nomes conhecidos: Jon Anderson e Peter Gabriel. Pesquisei e descobri o nome do álbum que eles fizeram participação: Angelus.

Angelus foi lançado em 1994 (!!!!) e além dos dois bichões citados anteriormente, tem a participação de Pat Metheny, Wayne Shorter, Herbie Hancock e James Taylor.

Como nunca tinha parado para ouvir Milton Nascimento acho que comecei (muito) bem e de quebra, amenizei esse bicho feroz chamado saudade...

A música que mais gostei (chovendo no molhado, mas dane-se): https://www.youtube.com/watch?v=f6pbJgliY9I

A música que me deixou bem emocionada: https://www.youtube.com/watch?v=3L6vPCrok1Y

Álbum completo: https://www.youtube.com/watch?v=HV4GWbMSWiQ

"The impulse is pure;
Sometimes our circuits get shorted
By external interference.
Signals get crossed
And the balance distorted
By internal incoherence.

(...)
Everybody got mixed feelings"

Rush - Vital Signs