Mônica acordou com o despertador. Na verdade era seu celular no modo despertador tocando a música "Non, je ne regrette rien". Meio grogue de sono, ficou sentada na cama durante dois minutos pensando qual seria o próximo passo. Olhou para o relógio e viu que tinha um tempo considerável para tomar banho, fazer vitamina de banana e ligar a TV só para fazer barulho no quarto.

Ela se olha no espelho e não liga para o rosto inchado e marcado com o travesseiro. Precisa fazer a sobrancelha, quiçá um tratamento de pele. 22 anos, porém, o rosto já começa a demonstrar que não consegue escapar da brutalidade e força do tempo.

Chuveiro ligado, água correndo pelo ralo (aquecimento solar). Olha para a água e vê fumaça saindo dela e entra no box para mais um banho matinal.

Depois de 10 minutos, sai enrolada na toalha, abre a porta para sair o vapor e começa a se arrumar para mais um dia. Na TV as notícias, o trânsito e os problemas são os mesmos. Até a maquiagem da Ana Paula Araújo não muda. Pega uma banana, aveia, metade de iogurte natural e leite e bate no liquidificador. "Melhor do que nada", ela pensa. Toma a vitamina com calma e termina de se arrumar, porém, não passa horas na frente do espelho se maquiando como muitas mulheres fazem hoje em dia. Apenas uma sombra para realçar alguma beleza que ela não vê, ou para se sentir "arrumada" para os padrões que a sociedade definiu.

Vê que a roupa está um pouco amarrotada, ainda não aprendeu a passar roupa social direito. Pensa no ônibus cheio, na falta de educação das pessoas e nos 15min de caminhada até a faculdade. "É praticamente impossível ficar impecável, logo, não vou me preocupar com um amassadinho desses". Pega a mochila, confere se tudo o que ela precisa está ali, pega a chave, celular com o fone e sai para sua rotina.

Dá bom dia para poucas pessoas, o Rivotril parece que ainda faz efeito às 7h da manhã. Sente-se lerda, sonolenta e estranhamente calma. As pessoas no ônibus estão visivelmente cansadas de suas rotinas e ela começa a pensar em várias coisas ao mesmo tempo. "Preciso marcar consulta no médico, preciso fazer os trabalhos da faculdade e estudar para a prova, preciso comprar uma lembrancinha de Páscoa para minha chefe e o auxiliar, preciso de dinheiro para visitar meus parentes, preciso tirar uma folga e ir para Petrópolis descansar, preciso, preciso, preciso...".

Ela gosta de sentar do lado esquerdo do ônibus para ver o Aterro do Flamengo. Ama ver o mar, os barcos, o Pão de Açúcar. Acha tudo aquilo tão maravilhoso que não se conforma que as pessoas ignorem aquela vista. Olha uma garça e acha a ave tão linda que levaria pra casa se pudesse. Chama carinhosamente de Narceja, aquela ave do filme "Up" que é colorida e engraçada. Começa a relembrar de quando viu aquela vista pela primeira vez e do quanto ficou encantada e com medo do que viria pela frente. E hoje, ao olhar para trás, vê que trilhou um caminho sozinha. Obviamente com a ajuda de várias pessoas, mas enfrentou muitas coisas e obstáculos sozinha. E começa a sentir orgulho de si mesma, coisa que ela não costuma a fazer com muita frequência. Ela acha que todos são melhores e mais bonitos do que ela e que passar pelo que ela passou é "fácil". E não é. E ninguém sabe como foi além dela.

Ela desce do ônibus e começa a sua caminhada. Olha para o Canecão e lembra do show dos Engenheiros do Hawaii que ela viu em 2008. Fica feliz por relembrar o quanto aquele show foi especial. Passa pela UFRJ e lembra do namorado que está quase acabando o curso e manda um SMS dando bom dia ou puxando assunto só para disfarçar a saudade que sente dele. Continua andando, olha para os prédios ao seu redor e pensa em como seria bom morar por ali. "Mas eu prefiro povão, Méier é meu lugar, Tijuca... Av. Itaberaba, minha eterna casa". Passa na frente do quiosque do côco e acha um abuso o preço: R$3,50. Quase um assalto a mão armada... Armas. Começa a lembrar da visão que teve do maluco de Realengo, em que o viu atirando na cabeça de crianças inocentes e indefesas sem dó nem piedade. Sente nojo, raiva mas logo passa graças ao Rivotril.

Continua andando, passa na frente do Instituto Benjamin Constant e vê os deficientes visuais entrarem na escola com suas bengalas fazendo tec-tec-tec-tec... Pensa no quanto eles devem serem felizes mesmo com uma deficiência. E fica feliz por eles.

Continua andando e fica irritada com o barulho da obra que estão fazendo na Urca. Ainda bem que a música abafa um pouco o som. Entra na faculdade e se depara com madeiras enormes cobrindo a cantina. "Finalmente vai sair o bandejão!" Sobe a rampa em direção a sala que está o professor e sorri dando bom dia. Rafael Fortes, professor de Comunicação, uma das poucas pessoas esclarecidas, sinceras e realistas daquele lugar. Uma aula boa de ver, ela adora dar sua opinião e participar. Às vezes sente um pouco de sono, mas o Rivotril é o grande culpado da sua sonolência. Risos daqui, conversa séria dali, uma fofoca com o seu melhor amigo e algumas conversas num tom bem baixo para não atrapalhar a aula. Ela ri das piadas que faz junto com o amigo, o amigo se segura para não explodir o riso e a aula termina. Os dois saem, conversam bastante sobre a vida, riem dos outros, riem de si mesmos e vão para o Mc Donald's do Rio Sul almoçar.

Ela come igual um leão. O seu amigo já está acostumado com a sua "ogridade". Ele entra no estágio mais tarde que ela, logo, precisa correr para chegar na hora. Ele fica sozinho e ela toma o rumo do trabalho, um trabalho que é gratificante, bacana e que é um dos sonhos dela que estava na lista "Realizar Ainda". Cumprimenta o assessorista que diz algumas passagens da Bíblia. Ela não é de nenhuma religião, não se importa muito por ouvir uns salmos, mas não quer assumir nenhuma obrigação ligada com religião. Entra na biblioteca, cumprimenta sua chefe e o auxiliar e começa mais um dia de trabalho.

Alguns usuários pedem ajuda por telefone, outros por e-mail, outros vão pessoalmente. Ela ainda está aprendendo, afinal, a área de Direito é muito vasta e cheia de detalhes. Ouve o auxiliar falar as notícias do dia e ri de algumas. A chefe começa uma discussão qualquer sobre coisas da vida, opiniões são dadas. Ela liga o rádio para "alegrar" o ambiente e se sente feliz por ver que pode trazer algo de "diferente" para a Biblioteca. Digita, pesquisa, acrescenta, busca, devolve, coloca na estante, tira da estante, cobra, pede e faz favores... Hora de ir embora.

Pega qualquer ônibus que passe perto da onde ela mora. Às vezes vai sentada, mas não se importa muito em ir a pé já que o trabalho fica a 15min de sua casa. Aliás, casa aqui bem entre aspas, pois é um pensionato. Ela mora em um quarto minúsculo, divide o banheiro com outra pessoa e paga um preço que ainda é considerado "justo". Passa na frente da Central e olha aquele relógio enorme, muitas pessoas atravessando, chegando, indo embora, buzinando, gritando, rindo, conversando, sérias, nervosas... Pessoas de todas as formas, tipos e conteúdos.

Ela passa pela Praça da Bandeira. Vê a bandeira do Brasil e fica danada por estar rasgada e suja. Desce no ponto, passa na padaria e compra uma Coca-Cola que durará a semana inteira já que mora sozinha. Chega no pensionato, dá boa noite para o porteiro Seu Joaquim, conversa um pouco com ele sobre qualquer coisa que venha a cabeça, pergunta se tem alguma cartinha, afinal, a avó ainda escreve para ela e não faz parte dos contatos de MSN dela. Nada, nenhuma carta. Pega o elevador, passa pelo corredor e entra em seu quarto às 20h. Liga a TV, está passando a novela que ela só ouve, não acompanha de fato. Abre a geladeira e a compara como o Polo Norte, só água, gelo, uma Coca-Cola e umas comidas congeladas para fazer no forninho que ganhou de sua mãe no Natal.

Sente-se só. Olha para a parede e vê várias fotos de sua família. Sente saudade. Sente fome. Sente vontade de falar, de conversar com alguém. Fala sozinha consigo mesma, amarradona. Altos papos com sua mente que aparentemente após uma bateria de exames parece estar normal. Olha para o retrato de sua mãe/avó/tia e sente saudade delas. Olha para o retrato dos seus irmãos e sente saudade do irmão do meio, o que mais influenciou sua vida. Olha para o vinil do Rush que ganhou do namorado e ouve Engenheiros do Hawaii no laptop. E continua falando sozinha. Telefone toca, é o namorado. Agora ela não fala mais sozinha e fala pelos cotovelos. Ele escuta, ri às vezes, fala bastante também e faz uns barulhos engraçados que ela adora. Eles desligam, ela toma banho, arruma algo para comer, toma Coca-Cola, senta na frente do laptop e vê seu e-mail: nada pendente. Precisa ler o texto do professor, mas está cansada e deixa para amanhã. "Leio no ônibus". Puxa conversa com a mãe, a tia e o irmão no MSN mas não consegue fazer com que a conversa dure mais de 1 hora. Às vezes a saudade é tão grande que o melhor a fazer é distanciar para não dar pinta de que você não está tão bem assim. Ela fecha o msn e fala com o namorado e uma nova amiga no Gtalk, dá uma olhada no Twitter, Facebook e fica de saco cheio por não ver novidades, só "vealhidades". Ela esqueceu de tomar a pílula, pega a cartela correndo e toma. O sono começa a bater, pega o seu Rivotril, despede-se da nova amiga e fala pro namorado ligar para dar boa noite.

Eles se falam, ele faz os barulhinhos engraçados, ela está grogue de sono e não tem meio termo em nada. Ou ela ri demais ou chora demais. Ontem ela chorou demais, hoje ela ri demais, amanhã será o que? Veremos...


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1 pontos de vista:

    Gaby disse...

    E ela ainda acredita que anjos existem.

  1. ... on 25 de abril de 2011 10:38