24 de set. de 2010

Viva.

Acordamos.
Tomamos banho e um café rápido para não chegarmos atrasados no trabalho/faculdade/médico/entrevista de emprego.
Pegamos um ônibus ou o carro que foi pago em suaves prestações.
Ligamos o rádio. As notícias são as mesmas.
Olhamos pra fora. As pessoas que vão e vem são as mesmas de sempre. Usam as mesmas roupas de sempre e estão sempre com a mesma casa: uma expressão triste, preocupada, nervosa ou cansada.
Voltamos o nosso olhar para dentro do ônibus ou carro. A música que toca já escutamos mais de uma vez. Trocamos de estação na tentativa de ouvir algo novo, uma notícia boa pelo menos... Nada.
De repente, acontece uma discussão entre o motorista do ônibus da frente e um motoqueiro. Xinga daqui, xinga dali, o motorista começa a dirigir e frear bruscamente fazendo com que os passageiros se sintam incomodados e até zangados. O cobrador tenta amenizar a situação falando um "deixa pra lá", mas não adianta. A raiva já tomou conta, agora ele desconta no ônibus inteiro.
Seguimos em frente. O trânsito é algo surreal. O calor é surreal. Ar condicionado? Com sorte, só no trabalho/faculdade.
Paramos pra pensar na vida. Começamos a lembrar de todas as nossas pendências e tentamos abstrair de todas as formas.
O trânsito começa a fluir bem. Depois de um certo tempo, chegamos no nosso destino. 8 horas se for trabalho, 5 horas se for faculdade, 3 horas no médico.

No trabalho, recebemos os mesmos emails de sempre. Os usuários/clientes que sempre aparecem dão o ar da graça. Almoçamos. Falamos da vida dos outros, mas a nossa deixamos de lado na tentativa de esquecê-la. Esquecer da nossa própria vida? Sim. Estamos tão cansados da nossa rotina que a rotina dos outros chega a ser mais interessante. Afinal, todo mundo gosta de ler a Caras e ver aqueles atores famosos na Ilha de Caras fazendo caras e bocas (há). Ah, e é claro, comendo tudo do bom e do melhor enquanto nos contentamos com a nossa humilde marmitinha.

Na faculdade, o sono aperta naquela aula que detestamos. Tentamos conversar com o amigo do lado, mas a professora pede insistentemente silêncio na sala. Damos uma pescada, outros não aguentam e dormem até babar. A aula termina e saímos da sala com o sentimento de alívio, sendo que o sentimento de arrependimento por não ter prestado atenção na aula não aparece nem que façamos um esforço gigantesco. Voltamos pra casa e/ou seguimos em direção ao estágio. Lá nos divertimos e aprendemos muito mais do que na faculdade, fazendo com que o estágio tenha mais preferência e prioridade do que a própria faculdade. Terminamos a nossa carga horária do dia, voltamos pra casa. Para alguns, a comida está pronta, para outros, é hora de ficar com a barriga no fogão ou fazer aquele cup noodles que está encalhado no armário há meses. Se temos algo importante para fazer da faculdade, começamos/terminamos e já é hora de dormir.

No médico, a consulta tem hora marcada, porém, já sabemos de antemão que não seremos atendidos no horário. Esperamos, lemos a Caras (ou melhor, apenas folheamos rapidamente na esperança de ser o próximo a ser chamado) e continuamos a esperar. Já tomamos café, água, assistimos um programa qualquer na televisão e nada. Perguntamos para a secretária quantas pessoas estão na nossa frente e ela diz, simpática e com um sorriso falso no rosto que falta mais uma pessoa. Essa pessoa é chamada, dá 5 minutos e ela logo sai. Que sorte! Entramos, contamos o nosso causo pro doutor, ele nos atende rapidamente e passa um remédio que nunca ouvimos falar. Marcamos o retorno com a secretária e saímos do escritório. Pegamos um ônibus, compramos o remédio (que diga-se de passagem é caro) e vamos pra casa. Contamos o que aconteceu na consulta para a esposa/marido mas eles não dão muita bola.

Estamos virando robôs.

Vivemos a rotina conforme os acontecimentos e no modo mais hard que houver. Não procuramos mudar absolutamente nada, nem o caminho que estamos acostumados a fazer. Olhamos pro lado de fora e vemos as pessoas com as mesmas caras e conformadas com a vida que elas possuem. Continuam jogando lixo no chão, comem no barzinho mais porco e podre da cidade, pagam suas contas que só aumentam a casa mês que passa, ao encontrar um antigo conhecido na rua fingem que não viram... A mudança, o algo diferente não existe. Estamos vivendo num modo automático, não estamos mais observando com olhares críticos e verdadeiros ao nosso redor. Apenas olhamos - e ficamos conformados com tudo.

O tempo é o nosso maior inimigo. Estamos sempre preocupados com horários, dinheiro, devedores, contas, carros, trânsito... Não estamos aproveitando a vida.

Só que a vida, é um relógio em forma de caixão. Quanto mais nós esquecemos dela, esquecemos também que daqui uns anos a morte irá nos encontrar... E quando ela chegar, não haverá um depois, um olhar diferente, um caminho diferente. Ela chegará e levará tudo o que você viveu. E desde quando viver no automático é sinônimo de viver?

Viva. O tempo está correndo. Amanhã pode ser um bom dia para seguir um caminho diferente. Amanhã pode ser o grande dia da sua vida. Basta você sair do automático e lembrar que estamos aqui não só para cumprir obrigações, mas sim para viver e aprender tudo o que a vida nos proporciona nos seus mínimos detalhes. Faça aquela ligação que você está adiando a tanto tempo. Visite o seu melhor amigo de infância e relembre os bons momentos. Saia com seus filhos, sobrinhos, cachorros, amigos, família. Dê um sorriso e um abraço sincero. Ria do seu tropeço, ria mais. Chore se estiver angustiado para liberar a angústia. Simplesmente viva. Viva com mais intensidade. Saia do automático.

Foto by Chema Madoz

Tá esperando o que?

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