6 de out. de 2014

Eleições com uma montanha de roupas

Passar roupa aos domingos é um hábito que adquiri da minha família, ou melhor, da minha mãe e da minha tia. Enquanto uma delas passava a montanha de roupas acumuladas na cadeira, alguns ficavam na sala assistindo televisão ou alguém estava sempre no computador graças a cobrança de um pulso só. De noite a minha mãe misturava o macarrão no molho, tal fato que só aprendi ou tive noção após uma briga com o meu irmão. Mais um hábito que também adquiri.



Enquanto passava as roupas, acompanhava na televisão o Domingão do Faustão pensando em como foi essa semana e em todos os acontecimentos bons e ruins. Não sei qual o motivo exato da maioria das pessoas odiarem tanto o domingo, mas concordo com a Martha Medeiros (acho que foi ela quem disse isso pela pesquisa rápida que fiz) que domingo é o dia mais em cima do muro que existe. Não tem aquele impacto da segunda-feira nem a alegria do sábado, é um dia insosso que de brinde vem a musiquinha do Fantástico só para dar aquela sensação escrota de um dia escroto.

Hoje fui acordada pela vizinha conversando com alguém. Segue (mais ou menos) o diálogo:
- Tua filha tem idade da minha neta!
- Ah é? Nossa, pensei que tinha menos!
- Mas vem cá, tu vai votar em quem?
- Na Dilma e no Tarso
- Bah, eu não voto no Tarso mas nem sob a mira de uma arma! Tchau, vai com Deus!

E lembrei que além de ser um domingo escroto, é um domingo de eleições. Bom Cristo.

Fui com o Yanko justificar o voto e o local de votação era numa paróquia. Chimarrão aqui, uns "bah" dali e aquele barulhinho famoso de urna eletrônica quando o voto é finalizado. Justificamos e saí de lá com a sensação de que uma merda muito grande vai acontecer a qualquer momento. Sabe quando você tem aquele feeling de que algo grande vai acontecer e sente que não é uma coisa boa? Pois é.

Voltando para as roupas, começou a pipocar na televisão a apuração dos votos. O desconforto começou a intensificar e assim que terminei de passar tudo, comecei a guardar e a separar algumas roupas para a viagem de semana que vem. Ignorei solenemente o que estava passando na televisão e assim que terminava uma atividade, iniciava outra para não dar espaço para pensar a respeito. Agora escrevendo essas palavras é óbvio que estou pensando no que está acontecendo, mas não estou acompanhando com olhos ferozes ou comemorando essa apuração.

Graças a essa eleição tive que tirar do meu feed do Facebook algumas pessoas. Outras me tiraram também, fato que é óbvio quando você posta uma foto e aqueles que curtiam não curtem mais. Não fico incomodada por "perder" o olhar ou o curtir ou o comentário de alguém, já foi a época de implorar por amizades, hoje em dia apenas não ligo mais. Outros me tiraram da sua rede de amigos por ter opiniões contrárias a deles e por apoiar algumas causas que muitos não apoiam.

Vi pessoas próximas misturarem religião com política e isso me chateou demais. Ok, isso acontece o tempo todo, mas quando é alguém próximo isso deixa um mini desconforto. Mas nada que um "deixar de seguir" não resolva o problema. O que os olhos não vêem... E nessa ótica é até aceitável que me tirem também, né? Pronto, estamos quites agora.

E desde então deixei de acompanhar essa rede social. Hoje apareci para ver se o pessoal do fórum YtseBR tinha postado algo em relação aos shows do DT e claro que curti uma foto ou outra nesse deslize. Mas assim que vi um post dizendo "Meus amigos não votam na Dilma", fechei correndo o Facebook para não sentir raiva. Não estou apoiando NINGUÉM, mas só mostrando até que ponto as pessoas podem chegar: julgarem suas amizades em cima de política, religião, orientação sexual e por aí vai... 

Segundo o Dicionário Informal:

Significados de Amizade:
1. Amizade
Sentimento de simpatia recíproca entre duas ou várias pessoas independente de um vínculo sexual ou de parentesco.
Uma espécie de semelhança entre pessoas, um ser que seguirei até o exílio, que defenderei com todas as minhas forças, é uma disposição permanente que decorre de uma escolha livre e recíproca.

Diante dessa definição (que obviamente cada um tem o seu significado de amizade), é triste ver como as pessoas passam por cima de tanta coisa que é mais importante. Dizem amém para tudo que o pastor ou politico diz, deixa de falar com parentes e amigos por não terem a mesma linha de pensamento ou de opinião... Postar atrocidades, falar e tratar com grosseria como se o outro fosse obrigado a engolir tudo sem ter a chance de dizer: cara, não é bem assim que a banda toca.

Graças a Deus somos, pensamos e temos objetivos/opiniões diferentes. Mas isso não quer dizer que alguém tem que meter o pé na porta e desistir da amizade de alguém por coisas tão ínfimas. Deixar de conversar só pq a vizinha vai votar no Tarso. Deixar de ser amigo de alguém só porque não concorda com a visão do Levy Aerotrem sobre os gays.

A lição que tirei disso tudo em uma semana é que o Facebook só é tóxico se as pessoas continuarem dentro de seus casulos. Tá na hora de sair, dar uma olhada lá fora. A vida não é e nunca será um mar de rosas, tampouco será do jeito que VOCÊ acha que deveria ser. Sair do casulo implica em saber respeitar a linha do limite e saber que o outro não é e nunca será igual a você. Vocês podem até serem parecidos mas tenha certeza de uma coisa: só nós mesmos, lá dentro, é que realmente sabemos quem nós somos. E são poucos que querem entrar e encarar isso de frente. Vai lá, continue postando, continue vivendo essa vida que você considera boa, dizendo amém pra tudo, perdendo amizades por bobagem. Mas não se esqueça que a vida é uma só e o mundo dá voltas. Aquele que votou na Dilma, no Tarso, na puta que pariu, é uma pessoa. Uma pessoa que gosta de você e que te respeita, independentemente da raça, do sexo, se é da esquerda ou da direita, se é Gremista ou Flamenguista. 

Saber separar as coisas é um grande passo para ser uma pessoa melhor. Que tal tentar?

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