31 de dez. de 2016

Deposta

Não sou de memorizar quantos anos as pessoas têm ou irão fazer. Sempre digo aos meus familiares que as pessoas pararam no tempo com as idades que a minha mente diz que elas possuem: minha mãe tem 47 anos, meus irmãos 27 e 30, minha tia 50 e minha avó uns 70. Pensar dessa forma me ajudava a não perceber que o tempo estava passando e com ele aumentando suas idades. Quando era pequena, pensava que todo mundo era eterno e que a morte só passava na porta de outras pessoas, nunca na nossa. Me sentia segura como uma ave embaixo das asas da mãe, mesmo com tantas tempestades, ventania e calor em excesso. Confortável.

Não sou fã de anos pares. E quando digo que não sou fã, inevitavelmente o que eu penso e acho torna-se real pela força e pela crença. Acabo sentindo e provavelmente transferindo essa carga negativa e sempre sou invadida por pensamentos negativos de "não será um ano tão bom" ou "algo ruim vai acontecer". Acredito em energias e na força dos pensamentos mesmo quando enfrento um mar de merda: abro o guarda-chuva ou recorro a capa de chuva para não molhar tanto. Mas os respingos da merda marcam, fedem e mesmo assim tento aprender da melhor forma possível.

Esse ano começou inacreditavelmente bizarro. No dia 08/01/2016 ouvi o novo álbum do David Bowie sem entender nada do que estava acontecendo. Assistia os clipes novos com uma interrogação na testa do tamanho de um elefante. Mas no dia 10/01/2016 a resposta veio feroz com sua morte anunciada e tudo fez sentido. A dor me invadiu e chorei assistindo o noticiário da BBC News. Como poderia chorar por alguém que não me conhecia e que eu não conhecia (pessoalmente e intimamente falando)? Mas ele com suas músicas e seu jeito camaleão de ser me conquistaram e me ajudaram em diversas situações da minha vida. Na maioria das vezes uma "resposta" ou um hit invadia a minha mente para questões ou momentos difíceis. Sua música ajudou na minha jornada, mas perdê-lo não fez com que uma porta se fechasse: seu recado foi e continua sendo dado e sua presença ainda está aqui de alguma forma.

O ano de 2016 seguiu dando muitas pauladas. Muitos se foram (para outro lugar que os vivos ainda não conheceram ou mudaram de estado, país ou simplesmente foram embora por opção), estranhos acontecimentos marcaram a política, intolerância e guerra (em todos os sentidos, não só o sentido de guerra entre dois países ou dois times de futebol) mostraram que a humanidade anda um pouquinho complicada. Mas ainda insistimos e resistimos com a crença do finado Nelson Ned de que:

"Mas tudo passa, tudo passará
E nada fica, nada ficará
Só se encontra a felicidade
Quando se entrega o coração

Voltarei a querer algum dia
Hoje eu sei que não vou mais chorar
Se em mim já não há alegria
A esperança me ensina a gritar"

Ontem, 29/12, Cássia Eller completava 15 anos de morte. Para aqueles que não sabem do meu segredo oculto, sempre gostei dela e sua voz me arrepia todas as churréias que ainda habitam esse corpo. Às 22h05 comecei a ouvir seu álbum, Com Você ... O Meu Mundo Ficaria Completo, e lembrei uma vez que a minha mãe reclamou que estava ouvindo o acústico dela após discutirmos sobre alguma coisa que não me lembro mais. Pesquisei sobre a Cássia e descobri que ela faleceu às 19h05 (aqui na Alemanha eram 22h05) e fiquei arrepiada com a coincidência. Adoro coincidências. E ontem passei a não gostar tanto assim.

A minha cabeça é esquisita. Ou melhor, os meus pensamentos normalmente são esquisitos. Muitos pensamentos surgem na minha cabeça sem pedir licença e quando percebo já estou pensando em coisas surreais, bizarras, tristes, felizes… Diria até que uma mini novela de acontecimentos surgem na minha cabeça. Seria eu, bipolar, ou normal para os padrões que a sociedade estabelece?

Meu marido estava jogando no computador enquanto tratava algumas fotos da última viagem que fizemos. E de repente, do nada, pensei na minha avó e na sua vontade de ser enterrada no jazigo que ela comprou com tanto esforço em São Paulo. Ela estava passando as festas de final de ano em Ilhéus com suas duas filhas e seu genro. E pensei "se acontecer alguma coisa, como vamos fazer para transferi-la para o jazigo?" e minha cabeça começou a doer. Sentia minha cabeça cheia, como se fosse um grande balão cheio de ar. Esses pensamentos estranhos e ruins guardo a sete chaves e sempre penso positivo em seguida. Mas o pensamento positivo não deu certo e a minha dúvida se concretizou na manhã do dia seguinte.

Eu ainda acho que vou acordar e que tudo isso foi um pesadelo. Que a minha avó estará bem, feliz na medida do possível, comendo feito um leão esfomeado e rindo, me chamando de "minha princesa!". Sinto que dentro de mim um pedaço está faltando, um vazio tão palpável que chega a assustar. Sinto que uma parte de mim morreu e que estou operando na base do piloto automático, talvez isso explique meu texto sem sentido algum. Eu sentia que precisava escrever para soltar toda a dor que me rasga por dentro sem dó. E continuo crendo que vou dormir agora e que amanhã tudo isso foi um pesadelo e que acabou.

Leio e releio suas cartas. Muitas me fazem rir, outras me fazem chorar pela saudade que me invade e por conseguir ouvir sua voz a cada linha lida. Deus, como ela era engraçada! Como ela sofreu sem a minha presença nos anos da faculdade… Como ela amava a família! E como ela deu o sangue por todos nós…

2016 encerrando e levando com ele uma das pessoas mais importantes da minha vida. E eu sendo deposta e deixando de ser princesa…

Por favor, alguém fecha a porta de 2016.

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"Minha princesa (...) o verdadeiro amigo é um amor que nunca acaba. Cuidado com o ferro quente."

"Oi minha princesa, peço a Deus que você esteja ótima. Eu estou bem. Estou te mandando a mesma fotografia de novo, espero que chegue. Não quero que você chore, você está aí por uma boa causa, falô? Beijo, que Deus te proteja. Vou no correio reclamar. Muitos beijos. Se você não receber me avisa!"

"Princesa, abriu uma sorveteria da hora perto da farmacinha perto da sua casa (...)"

"Agradeça a Regina, ao Osmar e o Iago por mim pela força que eles tem dado nesse ano que passou e que você faça por merecer para ter neste ano que vem a mesma coisa ou mais. Espero que você alcance tudo o que você deseja. Espero que não te aborreci, que você tenha sido feliz e conte sempre com esta velha bocó (...)"
Te amo, vó.

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