27 de jan. de 2014

Pequenos e pequenas

Está um calor insuportável no Rio de Janeiro. Dormir com sensação térmica de 31ºC quase todos os dias sem ar condicionado deveria ser considerado tentativa de suicídio. Olhar para o céu a noite chega a dar um desânimo da quantidade de estrelas: sim, amanhã será (mais) um dia de calor escaldante.

Recebi um convite para passar o final de semana no clube e peguei primeiramente o que não poderia esquecer de jeito nenhum: protetor solar fator 50 (que dizem por aí que acima de 30 é cascata), brilho labial com protetor solar, biquíni e um creme para passar nas costas que estavam (estão) bem queimadas da praia que fui no início da semana (está descascando, mãe! Agora está tudo bem!).

Mala pronta, vesti minha camisa mais fresca por conta das costas e partimos pro clube. Primeiro almoçamos em um dos restaurantes do clube e logo ativei meu hábito de observar ao redor. Não estranhe se fizer isso na sua casa, no bar, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê, minha memória fotográfica precisa disso e consequentemente me sinto mais confortável numa próxima visita. 

Algumas mulheres de milico são esquisitas. As reações são dignas de um quadro do Zorra Total: reagem como se você fosse obrigado a abrir e fechar a porta, tem que sair de perto na mesa de sobremesas senão é impossível pegar uma fatia de torta do seu lado (e tem muito espaço pra isso!)... Pedir licença para passar e tocar no ombro é quase um insulto, olhares de nojo e de reprovação duram até o primeiro unlock no celular (ufa, ainda bem). O que é tão engraçado? É que elas mastigam e cagam como qualquer pessoa e se acham no direito de se sentirem "superiores".

Depois do almoço divertido, partimos para a piscina. Lembra que falei que algumas mulheres de milico são esquisitas? Falei com três e todas me indicaram pomadas e receitas milagrosas para a queimadura das costas. Assim como tem gente mesquinha, tinha mulher de milico fofa e isso fez com que o ambiente não ficasse tão surreal demais.

Confesso que há alguns anos atrás não tinha tanta sensibilidade com crianças como tenho hoje. Achava um porre menininha de rosa e menininho tirando meleca e comendo, era do time que queria ter animais em vez de crianças. Obviamente o tempo passou e meus hormônios começaram a acordar (não 100%, tenha calma Yanko) e consequentemente minha ótica também mudou. Enfim, estava na piscina e comecei a reparar como elas são deixadas a deus dará enquanto seus pais estão olhando telas que mal dão para enxergar na claridade, batendo papo e tomando inúmeras cervejas. Sim, eles merecem um refresco, mas sempre que uma criança começava a tossir sem parar batia um desespero e começava a procurar de onde estava saindo aquele som. Normalmente elas só tinham tomado um caldo, mas e se tivesse acontecido algo pior? 

Está nos noticiários, virou rotina crianças morrerem afogadas por conta da sucção das piscinas. E eu, bocóa que sou, fiquei atenta ao meu redor com aqueles pequenininhos nadando a esmo, com boias de diversos tipos e tamanhos. Alguns pequenos aos berros chamavam a atenção para mostrarem um mergulho engraçado (e que com certeza para elas era um mergulho perfeito) e seus pais estavam com celulares na mão olhando o Facebook alheio. Pequenos momentos, pequenos mergulhos, pequenos e pequenas.

Sentada, observava esses pequenos correrem por conta do chão quente. Alguns chegavam a cair por não aguentarem a quentura, dando sequência a reação típica do pai-pega-a-criança-e-passa-para-a-mãe-acalmar-o-choro-de-susto". Algumas eram teimosas, não queriam sair da piscina para almoçar ou para passar novamente o protetor solar, diziam "NÃO VOU SAIR" com um bico de dar inveja a qualquer Batuíra-bicuda, deixando os pais furiosos e desgostosos. O passo seguinte era usar a força em vez da conversa: criação que mais tarde provavelmente teremos resultado não muito positivo...

Fechamos o dia indo num restaurante que não conhecia, adicionando mais uma experiência diferente no meu livro de histórias. Vocês sabiam que presunto parma com tomate seco é bom demais? Calzone de queijos e escarola é excelente, mas é grande demais (nota: ir com muita fome da próxima vez!). Encerramos o passeio em um dos restaurantes do local que tinha um homem tocando piano enquanto meus sogros adivinhavam e cantavam. E obviamente, não deixei de reparar o local: eles tentaram ser refinados demais, mas esqueceram de combinar os copos e os garfos nas mesas, dando a sensação de que parecia um jogo real de 7 erros. Mas não deixou de ser divertido :-)

Em uma das mesas, tinha um casal de idosos que me lembraram um casal de amigos lá do sul (Pri e Pase). Não sei por qual motivo lembrei justamente deles, mas senti como se tivessem se passado anos e estavam ali dividindo uma porção de batata frita enquanto ela mostrava algo no celular, dançando ao som de Garota de Ipanema. Fiquei feliz por eles e pelos meus sogros por testemunhar e fazer parte daquele pequeno momento que guardarei para sempre na minha mente.

PS: mozico, você fez e faz uma falta tremenda.

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