Terminei o terceiro grau em 2005. Naquela época era raro alguém ter celular e até mesmo MP3, então nos divertíamos com violão, partidas de vôlei e até mesmo guerra de comida (não levem a mal, às vezes a comida era tão ruim que fatalmente acabava como "munição"). A paquera funcionava através de troca de olhares e também com a ajuda de amigos: "fulano, essa aqui é a minha amiga que falei!" e a amiga saía de fininho para enfim, o casal conversar e se conhecer. Quando a classe não parava de conversar o professor dava uma aula de sermão (foi assim que não aprendi história...) e quando o sinal tocava, um berro uníssono de alegria ecoava pelos corredores. Ah, os corredores... Era tão legal ficar na porta esperando o professor! Você ia na sala do vizinho, conversava com o pessoal, paquerava, saía correndo da inspetora (nossa, como a Ana do Luiz de Brito dava medo!) e quando ela entrava e dizia "podem ir embora! o professor não veio!" mais um grito uníssono acontecia, deixando os outros alunos morrendo de inveja e curiosidade: "quem foi que faltou?! vamos embora também?!".
Quantas brigas e bullyings presenciei, fui vítima e também agi erroneamente... Mas tudo isso serviu para amadurecer e consequentemente meus amigos também amadureceram e aprenderam que levar chiclete com pimenta era "mancada", assim como cuspir bolinhas de papel na cabeça de alguma menina pode ocasionar reações violentas como cadeiras sendo lançadas como forma de proteção e de dar um basta. Naquela época você aprendia no amor e na dor profunda, não tinha rede social para desabafar, tampouco provocações sem ser olho no olho. A porrada só estancava quando o diálogo era impossível e tudo acabava se resolvendo. Eram raras as situações que a agressão ou bullying continuava. Não estou querendo dizer que a porrada resolvia o problema, mas o problema era encerrado de verdade, não ecoava com compartilhamentos, filmagens e afins.
Hoje em dia a tecnologia tomou conta do cotidiano da maioria das pessoas. Viramos escravos (ou reféns?) do loading:
Ficamos e andamos de cabeça baixa. Não há espaço para a troca de olhares, para ouvir uma boa música sem falar disso numa rede social, perdemos tempo tentando achar um ângulo perfeito para tirar foto daquela comida que enquanto esperamos estávamos olhando para o tal ícone... Quem não está com a cabeça baixa tenta desviar sem sucesso dos escravos do loading e fatalmente acabam se esbarrando. Mas os escravos não reclamam, apenas esperam o ícone e continuam com seus olhares para uma tela minúscula que mal dá para ver com a luz do sol refletindo...
Esse ícone faz parte de momentos bons e ruins. Não tem meio termo: ou a bomba explode ou um sorriso acende imediatamente após carregar. Provocações, vídeos de terceiros contendo imagens explícitas de sexo ou de um bebê que chora quando a mãe canta uma música mega triste, fotos de momentos íntimos e nem tão íntimos assim entre outros aparecem no seu feed ou foram enviados de boa ou má fé ou só de sacanagem porque "alguém deu mole".
Quando olho para trás e relembro 2005 e comparo com 2013 fico tremendamente assustada. A maioria das pessoas "ficaram" mais corajosas atrás de uma tela e se acham no direito de jogar a merda no ventilador sem pensar nas consequências desses atos. O diálogo e a confiança começam a ficar escassos nas relações pessoais dando espaço para muito pé atrás, indiferença e posturas como "dane-se, ela(ele) merece esse tapa na cara para aprender!" e o tapa normalmente é uma indireta, direta ou a publicação de algo nas redes sociais para denegrir a imagem daquele que um dia foi seu(sua) namorado(a), amigo(a), ex-cunhado(a), ex-sogra(o) ex-algo... As pessoas estão começando a perder o tato e o trato social e a tendência infelizmente é só piorar cada vez mais. Nada é feito, as leis são para aqueles que cometem os crimes e acabamos assistimos de camarote adolescentes cometerem suicídios por atitudes infelizes de irresponsáveis que tem o pensamento do "deu mole".
Não venham dizer que as adolescentes mereceram o fim ou as consequências que tiveram. Como qualquer outra pessoa elas tinham o direito de fazer o que quisessem no privado, porém, infelizmente, caíram nas mãos de pessoas que agem conforme a educação que receberam (ou seja, provavelmente nenhuma). Não sei como será daqui para frente, mas acho que passou da hora das pessoas pararem para pensar antes de apertar o enter: "Quem não tem teto de vidro que atire a primeira pedra".
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