24 de mai. de 2013

Simancol e Filtranol

Estou cansada.
Não é um cansaço físico, tampouco mental. É um cansaço que beira a irritação e em alguns momentos, vira raiva.






Estou cansada das pessoas. Ok, não de todas as pessoas do mundo, só daquelas que abandonaram os remédios Simancol e Filtranol. Não sei se estão mudando a fórmula ou se encareceu demais... Hmmm, espere um minuto, vou perguntar ao Google.





Nada. Nem o Google sabe.
Mas eu sei.




Antigamente os nossos pais nos educavam com poucas palavras. Quando digo poucas palavras, quero dizer que bastava dar apenas um olhar que nós entendíamos o que eles queriam dizer. Se estávamos na casa do vizinho e ele oferecia um copo de refrigerante, olhávamos para os nossos pais e apenas com um olhar sabíamos se poderíamos aceitar ou não. E se nós aceitávamos sem olhar para eles o couro comia quando chegava em casa. Não literalmente (ou literalmente em algumas famílias...), mas levávamos uma mini bronca, algo que jamais esquecíamos e que hoje em dia contamos aos nossos amigos com orgulho.

Sim, eu sinto orgulho quando lembro disso. É como se a educação e os bons modos fossem um presente que só os privilegiados ganharam na infância. E foi com esse olhar que aprendi a me comportar em várias situações do cotidiano, não só na hora de aceitar ou não um copo de refrigerante na casa do vizinho, mas até andar na rua e pedir desculpas caso esbarre em alguém. É como se tivesse um "olhar invisível" da minha mãe e ela se orgulhasse ou reprovasse toda vez que algo acontecesse.

Além do "olhar invisível", tomei durante um bom tempo doses altas de Simancol e Filtranol. E depois de "velha", aprendi com o meu sogro duas premissas básicas que são o respeito e a consideração pelas pessoas. Ele sempre diz que quando o respeito acaba a consideração também vai para o ralo, logo, cortar relações é a melhor saída para não ter futuras "chateações".

E é justamente aí que está o meu cansaço.

Estou cansada das pessoas não terem filtro para dizerem certas coisas. Elas simplesmente saem falando como se você fosse obrigado a ouvir e a aceitar como se fosse a coisa mais normal do mundo. 

Estou cansada das pessoas não usarem fone de ouvido e nos obrigarem a ouvir do funk ao axé.

Estou cansada dos fumantes que teimam em fumar em lugares fechados ou embaixo das marquises enquanto estamos "tentando" comer algo.

Estou cansada dos homens que nos agridem com seus comentários chulos, chamando de delícia para baixo como se fôssemos obrigadas a ouvir e a gostar do que estão dizendo.

Estou cansada das pessoas que só querem tirar vantagem em cima de outras pessoas.

Estou cansada das pessoas que não tem comprometimento com o trabalho e acham que é "normal" ter esse tipo de comportamento.

Estou cansada das pessoas que sempre tem um "mas" na manga e nunca assumem os seus erros.

Estou cansada das pessoas mal educadas que não cedem seus lugares a idosos, grávidas, pessoas com deficiência ou até crianças pequenas que mal conseguem se segurar em um ônibus a 70km por hora.

Estou cansada das pessoas olharem apenas para o seu umbigo, achando que só a sua vida é triste e miserável. Olhe ao redor, porra! Tem gente com situação muito pior que a sua!

Estou cansada das pessoas que gostam de viver de aparência, que deixam seus filhos passando necessidade enquanto compram celular que mal podem pagar a prestação.

Estou cansada das pessoas folgadas, que querem se aproveitar da sua boa vontade e te sugam até não poderem mais.

Estou cansada das pessoas SEMPRE fecharem os olhos para certos problemas e usarem a desculpa do "mas isso sempre aconteceu" (olha o MAS aí).

Estou cansada dos "revoltadinhos do sofá", que só reclamam e não mexem a bunda nem para pegar um copo de água ou só compartilham mensagens no Facebook como se fossem mudar o mundo.

Estou cansada de mudar todos os dias a minha trajetória para não ser assaltada.

Estou cansada de listar todas as coisas que me incomodam e que me deixam com raiva. Estou cansando vocês.

Mas uma coisa é certa: aos poucos, estou começando a incomodar (ao contrário dos "revoltadinhos do sofá" que não querem enfrentar nada). Ou mostrando o dedo do meio para o engraçadinho que soltou um comentário infeliz ao me ver passar, ou arrumando confusão com taxista "espertinho" que quer dar uma volta maior, ou mandando a merda quem fura a fila, ou reclamando pessoalmente a respeito de um atendimento que foi ruim ou de algo que não me deixou satisfeita... Afinal, se não reclamarmos ou ficar nessa estagnação de que "as coisas sempre foram assim", tudo vai continuar sendo a mesma merda e todas as pessoas continuarão sem Simancol e Filtranol e pior, se aproveitando da sua boa vontade. O que falta nessas pessoas é um choque de realidade, algo como "Ei cara, não é assim que a banda toca!". Cansei.

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