27 de jan. de 2010

Rachaduras e muros.

Casas. Casas diferentes. Casas parecidas. Casas feias. Casas bonitas. Casas indiferentes. Casas fora do comum. Casas com garagem. Casas prestes a cair...

Todas as casas possuem suas tragédias particulares. Todas as famílias possuem os seus segredos. Não importa qual o aspecto físico, toda casa guarda dentro de si uma história. História que não temos a menor idéia do que seja, história que não nos diz respeito. Mas como bons vizinhos que somos, estamos sempre prestando atenção no que o outro vizinho diz do vizinho da frente. Estamos sempre de ouvidos atentos, espiamos atrás das cortinas, tentamos ouvir a briga de um casal através de um copo grudado na parede. Tentamos ajudar, mas, na real, o que as pessoas querem mesmo saber é qual o problema que aquela família tem.

Essas casas são pequenas bolhas de sabão que a qualquer momento podem explodir.

E a gente ali no meio esperando pelo pior. Aguardando novas "fofocas", assistindo a tragédia do outro, agradecendo pela vida que temos.
Vida que não é valorizada.
Vida que é esquecida no meio de tanta curiosidade.
Vida que deve ser cuidada para não passar despercebida.

E o mais engraçado disso tudo é que quando ouvimos falar que uma criança morreu de fome na África, não ficamos nem de longe tão chocados como quando sabemos que, a duas casas ou a duas quadras da nossa casa, uma menina sofre de câncer terminal. A gente fica mais comovido com isso do que com uma coisa que é praticamente "normal". O normal, para muitas pessoas, é entediante, chato, sem graça. Não é a toa que tanta gente liga no BBB para ver a vida das pessoas, entrar na casa de cada um e descobrir os seus piores defeitos. E com uma ligação, tirar aquela pessoa porque simplesmente ela é normal demais.

As pessoas preferem viver a tragédia do outro do que viver a sua própria tragédia. Preferem perder horas e horas assistindo de camarote vidas se acabarem com uma traição, uma morte, uma saída frustrada de casa para nunca mais voltar... E a vida passando, e sem o botão de undo.

Algumas pessoas vivem enchendo a boca por aí dizendo que a sua vida é ótima e que tem a melhor família do mundo, o melhor esposo(a) ou namorado(a), melhores amigos, um ótimo emprego... Mas nenhuma casa é perfeita. Ela sempre terá uma rachadura que será visível para todos. E por mais que você queira olhar a rachadura da casa ao lado, a sua rachadura estará sempre ali amostra para quem quiser ver. Dentro de você existem os piores leões, cobras, jacarés e tubarões do mundo. Bichos que só você conhece bem e que eles sempre lutam para sair. Porém, a sociedade força o homem a contrariar a sua própria natureza, o que o faz ser um fantoche no meio de tantas casas com tantas tragédias. Ele prefere dizer ao mundo que é feliz sendo que não é. É como se a pessoa se auto enganasse o tempo inteiro para que, de alguma forma, a tal rachadura sumisse num piscar de olhos. Mas lembre-se que por mais que você pinte, use papéis de parede luxuosos ou coloque um contact em cima, a rachadura ainda vai permanecer naquele lugar, esperando que você derrube logo aquele muro e reconstrua tudo como deveria ter feito a meses, anos, talvez séculos atrás.

Todo dia é dia de mudança. Todo dia é dia de pegar uma marreta e derrubar pequenos muros dentro de você. Basta você deixar o muro do seu vizinho em paz e começar a realmente... Viver.
Viver agora. Viver de fato. Crescer. E lutar para que novas rachaduras não apareçam.

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